Título: Sombras da Alma (1/?)
Autora: Déia
Categoria: MSR, Angst
Classificação: PG-13
Feedback: deia_scully@ig.com.br
Spoilers: nenhum

Disclaimer: Os personagens desta história não pertencem a mim. Eles pertencem ao Chris Carter, a Fox e etc... Esta história não visa lucro e se destina unicamente a diversão dos fãs.
Sinopse: Ao decidir dar um passo adiante em seu relacionamento com Scully, Mulder se vê obrigado a enfrentar um inimigo desconhecido.


Sombras da Alma (1\?)


Era noite e, em algum lugar, uma sombra vagava em busca de uma vítima. A próxima. Desde que começara a matar, sua sede era cada vez maior, só assim poderia compensar sua dor. Sentia falta de sua amada, tanto que se transformara numa ferida profunda e na compulsão pela morte. Onde estaria ela agora? O que estaria fazendo? E, o que mais o preocupava, com quem? Estes pensamentos o atormentavam e, por alguns instantes, ele chegava a querer que ela também morresse. Mas não conseguiria acabar com ela, que havia sido tão importante, ela era única. Tantas vezes pensara em lhe dizer o que sentia, mas um medo infantil lhe invadia e ele se via sozinho, novamente sozinho. Em seu íntimo, ele desejava uma vida simples, mas o destino quis que as coisas fossem diferentes. Destino? Que bobagem. Ele sabia muito bem quem fazia o seu destino. As mesmas pessoas que brincavam com ele desde que nascera, que o fizeram de fantoche em seu teatrinho armado apenas para a diversão deles mesmos. Brincaram com sua vida e ela era sua vida. Fizeram-na sofrer para atingi-lo e ele nunca se perdoou por isso. Em alguns momentos, ele se permitia lembrar dos anos que passaram juntos. Involuntariamente, um sorriso lhe brotava na face. Mas, rapidamente, ele afastava essa imagem. Essa noite ele faria algo diferente. Suas vítimas não seriam mais escolhidas aleatoriamente. Ele queria um novo desafio para sua mente. Queria divertir-se com o sofrimento dos outros. Queria fazer alguém sentir exatamente o que ele sentia. E ele encontraria as pessoas perfeitas. Sabia disso.

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Scully olhava no relógio impaciente, dali a 10 minutos ela terminaria aquele relatório e, finalmente, poder descansar. Neste fim-de-semana, ela se permitiria cuidar de si mesma. Há muito que não o fazia, consumindo-se pelo trabalho. Mas não reclamava. No fundo, gostava dos Arquivos X, mas, sobretudo, ela amava Mulder e, por ele, ela abrira mão da vida segura que sempre sonhara para si. Para lutar, ao lado dele, por um mundo tão distante e utópico. Estava tão absorta em seus pensamentos, que nem ouviu quando ele a chamou.

- Scully, você está me ouvindo?
- Desculpe, eu estava distraída.
- Eu notei. Tem algo lhe afligindo?
- Não, Mulder. Eu estou bem.
- Ótimo, porque eu estive pensando...
- Não Mulder, você não achou nenhum caso extraordinário para investigarmos no fim desta sexta-feira, achou?
- Calma, Scully. Eu só pensei que pudesse me acompanhar...
- Mulder, não! Eu preciso descansar. Já estamos trabalhando há três semanas sem uma folga. Não faça isso comigo. Eu te vejo na segunda.

Ele suspira e a vê batendo a porta do escritório, mas não deixa de sorrir. Não desistiria assim tão fácil. Fora tão difícil para ele tomar coragem. Resolvera passar no apartamento dela mais tarde. Ela ficaria furiosa com a insistência dele, mas teria que ouvi-lo.

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Ele permanecia a espreita. Sabia que a noite seria mais fácil encontrar sua presa. De repente, ele viu. Podia sentir que aquele homem levava consigo um segredo, o mesmo que, um dia, ele também guardara. Agora tinha uma vítima, restava-lhe saber como iria destruir sua vida. Precisava estudá-lo e, também, ao objeto de seu amor, afinal seria através dela que ele o destruiria.

Ao passar por uma das ruas próximas ao prédio de Scully, Mulder sente um calafrio e, dentro de si, um medo cresce tomando formas gigantescas. Ele começa a se questionar se realmente aquilo era o melhor a se fazer. Não suportaria se a amizade com Scully terminasse por um impulso seu. Já havia pesado os prós e os contras milhares de vezes e já havia tomado sua decisão, mas um sentimento estranho o invadia e ele não conseguia afastá-lo. Ao chegar na porta do apartamento de Scully, ele hesita antes de bater, mas o faz, sendo recebido pela parceira.

- Mulder, o que faz aqui?
- Eu, bem... Sabe Scully, isso pode esperar até segunda. - e dizendo isso, ele dá meia volta se dirigindo ao elevador.

Scully não entende a atitude do parceiro e o segue até o elevador e, segurando seu braço, diz:

- Mulder, você está bem?
- Não é nada, Scully, desculpe tê-la incomodado - ele diz afastando-se dela - Eu preciso ir... Até segunda.

Mulder entra no elevador, deixando Scully muito intrigada. Este tipo de comportamento não combinava com ele.

Sentia-se péssimo. Tentava entender porque agira daquela forma, simplesmente não conseguia. Uma angústia enorme o invade. Estaria ele condenado a uma vida solitária? Queria tanto tê-la ao seu lado, mas não tinha coragem de ultrapassar os limites que eles mesmos haviam imposto.

Ele, finalmente, dá partida no carro, mas dessa vez não está completamente sozinho. Uma sombra o acompanha.

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03:30 am.

O suor cobria-lhe todo o corpo, ele estava agitado demais, debatia-se na cama e chamava por ela. Enquanto isso, era observado de perto por seu algoz que se divertia ao ver as reações que causava nele. O sofrimento de Mulder alimentava seu espírito e lhe dava um prazer mórbido.

Mulder acorda assustado e com a respiração descompassada. Ele leva automaticamente a mão ao telefone, mas desiste. Não a chamaria desta vez. Scully nunca reclamara quando ele ligava para ela, tarde da noite, assustado por seus pesadelos. Ela sempre esteve lá por ele, mas ele decide não importuná-la. Levanta-se para lavar o rosto e sente-se melhor quando a água fria bate em sua pele. Porém a preocupação continua. De alguma forma, ele precisava saber se ela estava bem. Ele toma novamente o telefone chamando o número de Scully. O telefone toca, até que a secretária eletrônica atende. Ele sente um frio invadir-lhe o corpo e sai de seu apartamento tentando o celular dela, também sem sucesso.

Foram longos 20 minutos até a chegada ao apartamento de Scully. Ele bate a porta e nem ao menos espera que seja aberta. Retira do bolso um molho de chaves e a abre. Ele entra e percorre o local com os olhos, aparentemente estava tudo em ordem. Mulder abre a porta do quarto e apóia-se no batente, suspira profundamente e sente seus olhos úmidos. A visão de Scully dormindo tão serena fazia seu coração apertar, sentia-se sufocado. Era como se, por alguns instantes, ele entrasse em transe e perdesse o controle de seu corpo. Esse sentimento que se fortalecera durante todos esses anos agora lhe arrebentava por dentro, queria sair e não lhe obedecia mais, não se mantinha quieto e calmo, tornara-se algo maior do que Mulder previra, maior que sua força e seu autocontrole. Ao dar o primeiro passo em direção a ela, seu coração é tomado pelo medo. Ele não conseguiria, um sentimento de derrota e fraqueza fazia aumentar sua vulnerabilidade. Um conflito interno era travado. O amor contra o medo. Quem venceria? Ele não sabia, mas tinha a certeza de que ao fim dessa guerra, o vencedor comandaria sua vida para sempre. Ele dá uma última olhada em Scully, antes de sair correndo do apartamento dela. Aquela batalha tinha sido vencida pelo medo.

Scully ouve a porta bater e acorda. Levanta assustada e vai a sala já com sua arma na mão. Não vê ninguém, olha em volta, tudo calmo. Ela pega o interfone e pergunta ao zelador se alguém havia saído do prédio há poucos minutos.

- Só o seu parceiro.
- Ele esteve aqui?
- Sim, pensei que tivesse ido ao seu apartamento. Ele acabou de passar por mim. Algum problema?
- Não, nenhum. Obrigada.
- De nada, boa noite.
- Boa noite.

Scully fica preocupada com Mulder. Ele estava estranho. Ela tenta o celular dele, mas está desligado. Ela se senta no sofá e espera o tempo suficiente para Mulder chegar em casa, então ela liga novamente para ele. A secretária eletrônica atende.

- Mulder, eu sei que está aí, por favor, atenda ao telefone.

Ele olha para o aparelho sem saber o que fazer. Não sabia o que diria a ela.

- Mulder, se não atender esse telefone, eu vou até o seu apartamento.

Ao ouvir as palavras dela, ele atende ao telefone.

- Oi Scully.
- Mulder o que está havendo?
- Como assim? - disse ele tentando disfarçar.
- Por que veio ao meu apartamento?
- Eu disse que podia esperar até segunda, Scully. Não era nada importante.
- Não se faça de desentendido, Mulder. Eu estou perguntando porque esteve no meu apartamento há alguns minutos e não minta prá mim.
- Eu tive um pesadelo, liguei prá você, mas ninguém atendeu. Fiquei com medo que tivesse lhe acontecido algo.
- E por que não me acordou?
- Não tive coragem.
- Mulder...
- Está tarde, Scully, vá dormir. Sinto muito lhe ter acordado.
- Não precisa se desculpar Mulder. Conte-me seu sonho.
- Não... Scully, eu não acho...
- Vamos, Mulder, deixe-me ajudá-lo.

Ele suspira e começa a falar.

- Foi tão real dessa vez, Scully. Eu via você sendo levada de mim e eu não fazia nada, eu queria, mas não conseguia. Era como se eu tivesse desistido de tudo, de você. E eu sabia que dessa vez, você não voltaria.
- Mulder, eu estou aqui, foi apenas um pesadelo. Você esteve estranho o dia todo. Tem alguma coisa lhe incomodando? Algo que queira me contar?

"Ela não acreditaria em você. Sempre duvida do que diz. Se você contar, ela vai se afastar". Mulder fica alguns minutos em silêncio. Embora ele tentasse afastar aqueles pensamentos, não conseguia. Afinal, o que estava havendo? Nunca em sua vida sentira-se tão abalado. Estava confuso, às vezes tinha impressão de que seus pensamentos não eram verdadeiramente seus.

- Mulder? Está aí?
- Ahn? Ah, sim, Scully. Está tudo bem comigo. Como você mesma disse, estamos trabalhando há 3 semanas sem descanso. Deve ser apenas cansaço.
- Eu espero que sim.
- Desculpe tê-la acordado, Scully.
- Está tudo bem, Mulder. Só quero que descanse.
- Obrigado, Scully.
- Boa noite.
- Boa noite.

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Scully sabia que havia algo de errado com o parceiro, mas o que poderia ser? O que quer que fosse tinha realmente afetado Mulder. Seu comportamento era contraditório com sua personalidade. Ela resolve que o melhor a fazer é esperar. Talvez fosse apenas cansaço como ele lhe dissera. Se houvesse algum outro motivo, ela descobriria.

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Mulder permaneceu sentado no sofá. O olhar perdido e um vazio por dentro. De repente, seu apartamento se tornara tão grande para ele. Era como se ele fosse a única pessoa naquela cidade. Tentava se lembrar da última vez que tivera alguém dividindo o mesmo teto que ele. Ao lembrar das mulheres com as quais teve um envolvimento mais sério, percebeu que sempre fora sozinho, que elas nunca preencheram este espaço vazio em seu peito. Há 7 anos, ele encontrara alguém, que ele sabia, era a única que poderia completá-lo. Ela já o salvara tantas vezes e de tantas formas, mas ainda havia algo não resolvido entre eles e, por mais que Mulder quisesse que Scully finalmente tomasse posse daquilo que só a ela pertencia, o seu coração, ele tinha medo de que ela se afastasse ao saber e levasse consigo as esperanças que ele ainda tinha de ter uma vida um pouco mais normal e, quem sabe, feliz.

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11:25 am

Mulder ainda está no sofá, dormira pouco aquela noite e, mesmo quando conseguira, tivera pesadelos horríveis, em todos eles via Scully sendo levada de si. Ele ouve batidas na porta e um sorriso brota em sua face cansada. Ele sabia quem era. Corre para abrir e se detém um minuto a contemplar a mulher a sua frente.

- Scully...
- Eu trouxe o almoço. - ela diz erguendo duas caixinhas de comida chinesa.
- Entre. - seu sorriso era ainda maior agora. Sentia-se importante na vida da parceira. Ele sabia o quanto Scully esperara por essa folga e como ela queria ficar o mais afastada possível dos assuntos do trabalho, mas ela estava ali, com ele agora e nada mais importava.
- Eu estava em casa, pensando no que eu iria almoçar. Senti uma vontade enorme de comer comida chinesa e lembrei o quanto você gosta, então eu trouxe para nós. - Scully falava sem parar, como se precisasse justificar sua presença ali. - Espero que esteja com fome, passei naquele restaurante onde você costuma comprar...
- Scully, tem alguma coisa que você queira me dizer?

Ela respira fundo, sabia que estava tentando agir naturalmente, mas Mulder a conhecia bem.

- Eu estava preocupada com você. Queria saber se estava bem.
- Eu estou bem, Scully. Está tudo bem, fico feliz que tenha vindo.

Scully olhou nos olhos de Mulder tentando confirmar o que ele acabara de dizer, mas havia uma sombra em seus olhos, algo que ela nunca vira antes e teve medo por isso. Alguma coisa estava acontecendo com Mulder e ele não queria contar a ela.

- Vamos comer, então? Eu vou buscar os pratos.

Scully apenas sorri como resposta.

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Agora ele sabia o pilar mais forte daquele relacionamento: confiança. Ambos confiavam cegamente um no outro e se conheciam profundamente e da forma que só duas pessoas que se amam de verdade se conhecem, pelo olhar. Entre eles as palavras eram desnecessárias. Isso só o instigava mais. Agora, mais que nunca, queria separá-los, sabia que o desafio era maior do que imaginava, mas gostava disso. Usaria de todos os artifícios, mas conseguiria seu intento e ele já sabia por onde começaria.

Voltou sua atenção ao casal que já se preparava para comer. Ao observá-la mais atentamente percebera que algo nela não o deixava entrar em sua mente. Ele já tentara antes, mas não havia conseguido. Ele se deteve, por um momento, no objeto que ela trazia sob seu pescoço, a sua fé não o deixava seguir adiante, a fé que faltava em Mulder. Ele se sentiu um tanto vacilante ante a esta descoberta, mas nem isto o demoveria de seus planos. E se eles se conheciam tanto quanto parecia, com certeza não seria difícil descobrir o ponto fraco dela, o que lhe seria muito útil, talvez fundamental. Voltou a se ater no diálogo deles. Não deixaria que eles criassem um ambiente favorável ao sentimento que traziam em si, precisava afastá-los, antes que eles tomassem coragem.

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- Mulder, o que você tinha para me dizer ontem?

Mulder engasga e empalidece. Scully fica preocupada e levanta-se para ajudá-lo.

- O que houve, Mulder? Por que você ficou assim?
- Não foi nada, Scully. Eu só me assustei.
- Se assustou?
- Sim. Foi isso.
- Então... - disse Scully esperando uma resposta e voltando a sentar-se.
- Que tal deixarmos isso para depois do almoço?
- Está bem. - Scully assentiu tentando imaginar o que teria ele a dizer que o deixava tão nervoso. Ela percebera a mudança em seu rosto. Devia ser algo realmente importante, para deixá-lo neste estado. Por mais que ela tentasse esperar para ouvir dele, sua mente associativa trabalhava incessantemente tentando juntar as poucas peças que ela recebera desse quebra-cabeça. Sua intuição lhe alertava para os perigos que ela iria enfrentar, mas ela interpretava esses perigos como o afastamento deles, esse era o seu maior medo. Não saberia viver sem ele e, embora tentasse não pensar nisso, sua racionalidade lhe dizia que cedo ou tarde eles tomariam rumos diferentes na vida, a não ser que... Não, ela ainda não estava pronta para abrir seu coração, para dizer a ele o quanto sua presença era importante para ela.

Seus pensamentos são interrompidos pelos gritos vindos do corredor e pelo som de um tiro. Mulder alcança sua arma e sai apressadamente seguido por Scully. Ao chegarem a porta do apartamento 44, eles ouvem mais um tiro. Ao arrombarem a porta, eles vêem um casal morto no chão. Dois tiros certeiros. Aparentemente, o homem atirara na mulher e se matara em seguida. Scully ouve um choro de criança vindo do quarto. Ela abre a porta com cuidado e encontra um bebê de aproximadamente 1 ano e meio no berço.

- Mulder, venha até aqui.

Ele se aproxima dela e vê a criança. Eles se olham e Scully se aproxima do berço pegando o bebê no colo, embalando-o para que se acalmasse. Mulder sente um frio correr por todo seu corpo. Ele sabia como isso era difícil para Scully. Ele queria poder devolver a ela a esperança de ser mãe.

- O que você sabe sobre eles, Mulder?
- Não muito. Eles se mudaram para cá há uns 3 ou 4 anos. Viviam sozinhos. Adotaram o bebê há uns 6 meses.
- Adotaram?
- Sim,... - ele reluta um pouco, mas diante do olhar inquisidor dela, por fim diz - ela não podia ter filhos.

Scully abaixa os olhos e suspira. Tinha que se manter forte, não poderia demonstrar o quanto isso lhe afetava, acima de tudo porque sabia que Mulder se culpava por todo mal que lhe fora feito e ela não queria que ele se torturasse, não conseguia vê-lo se punindo por algo que não era sua culpa.

- É melhor chamarmos a polícia e avisarmos a família.
- Eu cuido disso - Mulder vai até o telefone, enquanto Scully cuida do bebê. Em seus pensamentos, ela tentava imaginar o que levara aquele homem a atirar em sua esposa e se suicidar e pensava também no futuro que teria a criança que ela carregava nos braços agora. Só lhe restava esperar que alguém da família assumisse a criança para que ela não tivesse que voltar para um orfanato. Durante algum tempo, ela se ateve a um porta-retrato que havia na cômoda próxima ao berço. O casal e o bebê. Pareciam tão felizes, tão cheios de vida e esperanças. Por quê? Mas essa pergunta não tinha resposta ainda e talvez nunca tivesse. Olhou novamente para o bebê que agora dormia em seu colo. Sorriu tentando afastar a tristeza que sentia em seu coração. Ouviu o parceiro chamá-la e colocou a criança novamente em seu berço. Aproximou-se de Mulder e percebeu a expressão preocupada que tinha.
- O que houve, Mulder?
- Scully, essa é a senhora Rendell. Ela mora no apartamento 45.
- Olá senhora Rendell, a senhora tem alguma idéia dos motivos que levaram o senhor...
- Davis.
- Davis a matar sua esposa e se suicidar?
- Não, nenhuma. Eles viviam bem, aliás bem não é a melhor palavra, eu nunca tinha visto um casal mais feliz, mais apaixonado. Eles estavam casados há 12 anos e ainda agiam como um casal de namorados. E quando a pequena Liz chegou, eles pareciam ainda mais felizes. É difícil de acreditar que isso tenha acontecido com eles.
- A senhora sabe de alguém da família a quem pudéssemos avisar?
- Não, eles falavam pouco da família. Eu sei que a irmã de Susan mora na Ásia e que Theodore era filho único, os pais de ambos já estão mortos.
- Bom, neste caso acho melhor chamarmos uma assistente social para cuidar da menina. Obrigado, senhora Rendell, se tivermos mais perguntas, voltaremos a procurá-la.
- Está certo, boa tarde.
- Boa tarde.

Mulder encaminha a mulher até a porta e, logo em seguida, se dirige a Scully.

- O que acha, Scully? - mas ela não responde, parece distante - Scully, está me ouvindo?
- Eu não sei o que acho, Mulder. Talvez a senhora Rendell não conhecesse assim tão bem o casal. E você? O que acha?
- Eu ainda não tenho uma opinião formada, mas acho que podemos verificar a história da senhora Rendell conversando com outros vizinhos e amigos do casal.
- Mulder, estamos de folga. Vamos deixar que a polícia cuide disso.
- Eu só estava curioso, Scully. Não achou essa história muito estranha?
- Admito que é estranha, mas não comece a ver um Arquivo X onde não há.
- Eu não disse que é um Arquivo X, só disse que era estranho.
- Claro, como se eu não o conhecesse.

Mulder sorri ternamente para ela, que sente seu coração amolecer no mesmo instante. Se ele soubesse o poder que aquele sorrido tem sobre ela, estaria ainda mais perdida.

Alguns oficiais entram no apartamento e começam a interrogar Mulder e Scully. Após duas horas, eles voltaram ao apartamento de Mulder, estavam exaustos, a perícia havia confirmado que havia sido realmente um homicídio seguido de suicídio, mas a polícia não encontrara no apartamento nenhum indício do motivo. Liz havia sido levada pela assistente social que tentaria contactar a irmã de Susan, mas era provável que a menina voltasse a um orfanato.

Scully se sentia mal com tudo aquilo, ainda mais pela criança que ficara novamente sozinha, sentia um peso enorme em seu coração. Seu olhar se fixara em um ponto qualquer na parede. Se ao menos, ela pudesse convencer a assistente social... Liz poderia dar-lhe uma das maiores alegrias de sua vida, um de seus maiores desejos... ser mãe.

Mulder a observava e tentava desesperadamente encontrar uma maneira de fazer com que ela se sentisse melhor. Faria qualquer coisa para aliviar sua dor. Ele coloca uma mão sobre o ombro dela para demonstrar-lhe que estava ali para apoiá-la e ajudá-la no que precisasse. A reação de Scully o surpreendeu, mas, sobretudo, apertou seu coração. Ela se abraçara nele com todas as suas forças e chorou copiosamente. Ele sabia o quanto era difícil para ela demonstrar assim seus sentimentos e ele se sentia grato por poder estar ao seu lado nesse momento. Deixou que chorasse, que aliviasse seu peito, limitando-se a afagar-lhe os cabelos. Quando o pranto cessou ela ergueu sua cabeça e sorrindo lhe agradeceu. Naquele momento, ele sentiu que deveria aproveitar essa oportunidade e finalmente dizer a ela tudo o que havia planejado. Ela estava em seus braços, olhando-o como se esperasse que ele lhe desse qualquer sinal para que ela pudesse prosseguir, dando o último e tão esperado passo que os aproximaria ainda mais, que os tornaria mais que apenas parceiros, mais que amigos. Seus corações batiam acelerados e seus braços os prendiam ainda mais forte ao abraço.

Uma sensação estranha, porém, fez com que Mulder se afastasse. Em sua mente, um pensamento cada vez mais forte de que aquilo era errado, de que ele estava se aproveitando de um momento de vulnerabilidade dela. Ele se sentia sujo. Não faria isso, não poderia se encarar novamente sabendo que havia se aproveitado dela.

Scully o olha sem entender ainda a reação dele e se aproxima.

- Mulder, você está bem?
- Scully, eu estou com um pouco de dor de cabeça e gostaria de me deitar um pouco...
- Quer alguma coisa, Mulder? Eu posso buscar um remédio...
- Não! Não, não é preciso. Eu só estou me sentindo cansado.
- Ah, claro, eu vou embora, então. Se precisar de alguma coisa...
- Eu ligo, pode deixar.
- Está bem, tchau, Mulder.
- Tchau Scully.

Saiu do apartamento de Mulder cabisbaixa. Como havia sido tola, se antes tinha dúvidas a respeito dos sentimentos que o parceiro nutria por ela, agora tinha certeza. Se expusera demais hoje e sabia disso, tinha plena consciência de seus atos quando olhara nos olhos dele, esperando uma resposta, mas esta não fora a que ela desejava. Por um instante, por um breve instante, ela vira nos olhos dele refletido o mesmo amor que ela sentia e seu coração se encheu de esperanças, apenas para se espedaçar quando ele se afastara dela, com a desculpa mais esfarrapada que ela ouvira. E o que lhe doía ainda mais era saber que ele devia estar com pena dela agora. Como ela poderia olhar para o parceiro de agora em diante? Como continuar convivendo juntos se ela fora tão longe? Suspirou, o melhor que tinha a fazer era tomar um bom banho quando chegasse em casa e, finalmente, dormir, ou pelo menos tentar.

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Mulder ficara parado, olhando para a porta por longos minutos. Teria ele agido certo? Talvez tivesse perdido uma grande chance de dizer a Scully o que ele vinha ensaiando há tanto tempo. Talvez se ele fosse atrás dela... Não, ele não poderia. Em seu íntimo se formava uma tempestade, uma verdadeira batalha de sentimentos. Uma parte dele queria correr atrás de Scully e prendê-la em seus braços, a outra, porém, lhe dizia que a reação que ela tivera em seu apartamento fora pelo desgaste emocional que ela tivera durante o dia e que ele não poderia se aproveitar desse momento. Se sentia culpado dessa vez por algo que não fizera, mas que esteve tão perto de fazer.

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Os dias passavam de forma difícil para ambos. Scully estava distante, ainda se sentindo mal por sua atitude "espontânea" no apartamento do parceiro. Por mais que tentasse já não conseguia agir naturalmente com ele, queria, ao menos, que a parceria, a cumplicidade deles permanecesse a mesma. Ela não sabia se poderia viver sem isso, era como um vício e ela se pegou sorrindo com este pensamento, mas era um sorriso triste. Durante esse momento, ela entendeu que um vício só é curado quando nos afastamos daquilo que o causa. Talvez fosse a melhor coisa que ela poderia fazer por ela e por ele. Uma lágrima solitária correra de seus olhos. Isso seria, sem dúvida, o passo mais difícil que ela daria na vida, mas se fosse realmente necessário...

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Mulder agora chegava atrasado todos os dias, Scully notara que suas olheiras, no entanto, estavam cada dia mais profundas. Ele já não brincava mais e parecia perturbado. Scully acreditava que a exposição de seus sentimentos fosse o motivo de sua mudança. Mulder, por sua vez, tinha plena certeza de que ela havia se afastado dele, pois percebera a natureza de seus sentimentos por ela e como ele estivera a um posso de ir adiante, mesmo estando ela tão vulnerável. Poucas vezes ela demonstrava esse lado de sua personalidade. A mulher frágil e que também precisa de apoio e consolo. E agora ele acabara com isso. Ela nunca mais permitiria se expor novamente sabendo que, da próxima vez, o parceiro poderia não se conter. Esses pensamentos o atormentavam tanto que ele já não conseguia se concentrar direito no trabalho, não dormia bem e seus pesadelos se tornavam freqüentes.

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Duas semanas haviam se passado desde o incidente no apartamento de Mulder, sem que o clima entre eles se alterasse. Na quinta-feira, porém, Scully chegara ao escritório com uma expressão mais leve, e logo começou a mexer nos papéis sobre sua mesa a procura de algo. Foi assim que Mulder a encontrara ao chegar, ela estava extremamente concentrada em sua tarefa. Ele a olhou confuso, Scully parecia ansiosa.

- Scully, está precisando de ajuda?
- Eu... Você chegou cedo.
- Na verdade, eu cheguei no horário.

Ela olhara no relógio. Era verdade, ela achou que ele não fosse chegar cedo, em vista dos últimos dias. Mas era melhor assim, ela não podia fugir dele para sempre.

- Mulder, precisamos conversar.

Ele conhecia aquele tom e sabia que não iria gostar do que ouviria.

- Aconteceu alguma coisa, Scully?
- Sim, aconteceu. Mulder você sabe que uma das coisas que eu mais desejo é ser mãe - ao ouvir essas palavras, ele desviara o olhar dela e dera um profundo suspiro - Mulder, não é sua culpa, não quero que se culpe por isso, está bem?

Ele sorriu, ainda era capaz de se surpreender às vezes com a forma que ambos se conheciam e reconheciam cada gesto e expressão um do outro.

- Eu vou tentar - mas ela o olhava intensamente como se não fosse essa a resposta que ela queria ouvir - está bem, Scully, eu prometo.
- Ótimo. Eu resolvi adotar uma criança, Mulder. Lembra-se de Elizabeth? Aquela garotinha que fora adotada pelos seus vizinhos? - ele concordara com a cabeça e ela continuou - Pois bem, eu entrei com um pedido de guarda dela.

Ele sorriu e instintivamente tocou-lhe o rosto e acariciando-o, disse:

- Eu estou muito feliz por você.
- Obrigada, Mulder... mas não é só isso.

Ele percebera que havia algo mais e que não era uma boa coisa.

- Tem algo errado, Scully?
- Mulder, para eu conseguir a guarda de Elizabeth, eu fui aconselhada a deixar o FBI, ou, ao menos, mudar de sessão, voltar a dar aulas em Quântico, talvez. Eles disseram que meu trabalho é muito arriscado e eu não poderia me dedicar tanto a ela, tendo que sair a campo, muitas vezes fora da cidade. E eles têm razão, Mulder. Por mais que eu ame meu trabalho aqui nos Arquivos X, por mais que essa busca pela verdade tenha se tornado grande parte da minha vida, eu não posso sufocar o desejo ter um filho. De poder cuidar de uma criança, de saber que ela depende de mim e eu dela. De começar a formar uma família. O tempo esta passando e eu preciso dar esse passo agora.

Mulder nunca se sentira tão sozinho em sua vida. Sentia seu corpo tremer, apenas com a idéia de não tê-la junto de si. Agora era real. Ela iria embora e ele não tinha coragem de pedir a ela que ficasse dessa vez. Ele sabia o quanto ser mãe era importante para ela, ele não tinha esse direito.

- Você já tomou sua decisão, então.
- Sim, já. Eu vou pedir transferência para Quântico. Eu acho que ainda posso ser útil para o FBI.
- E quando vai ser isso?
- Assim que eu encontrar o pedido de transferência que eu deixei aqui ontem no meio desses papéis - disse, voltando a remexer os papéis.

Ele sentiu seu coração acelerar, uma dor profunda se alastrava em seu interior. Ele a observou durante algum tempo, tentando registrar todos os seus movimentos, memorizar cada expressão, cada gesto. Ao perceber que seus olhos estavam repletos de lágrimas, saiu do escritório. Não poderia vê-la partir.

Ao notar que Mulder havia saído, ela encostou a cabeça na mesa e chorou, não conseguindo mais conter a avalanche de emoções que tomavam conta de si, tentando se livrar de toda a tristeza que sentia por ter de se afastar do parceiro.

Fim da parte 1

Espero que estejam gostando até aqui, a parte 2 virá em breve.